Introdução

Meu nome é Léo Leobons, e é um privilégio dar-lhes as boas-vindas a este site. Meu nome de santo é Asonsizulemi, na nação Arará Savalu em Cuba, nome que me foi dado por meu pai, Azohanu Dasoyí. Minha dijina de Añá é Obá Ilú, nome dado por Orúnmila.

Sou também um Alaña - dono de um tambor sagrado - e este site é dedicado a meu tambor ´de fundamento´, um batá-Añá, consagrado em Havana, em 9 de novembro de 1998. O nome de meu tambor é Ako Bí Añá - ´O Primogênito de Añá´. Este site também é dedicado à memória de meu amigo, irmão e mestre Fermín Nani, Ochunletí, falecido em 4 de maio de 2007, que timberoso, timbeloye, timbelese Olodumaré.

Fermín Nani em frente ao Cristo Redentor no Rio de Janeiro em 2002

Fermín Nani no Rio de Janeiro em 2002

Añá em Cuba, Ayán na África, que poderemos aportuguesar para ´Anhá´ no Brasil, é o tambor sagrado dos Iorubás. Estes tambores levam em seu bojo o assentamento de um orixá do mesmo nome, e constituem um ser vivo, alimentado sobretudo por sua própria música e pelo toque e oferendas de seus sacerdotes, os omo-Aña.

Bem-vindos, em nome de Añá.

ILÚ AÑÁ - O TAMBOR SAGRADO

Añá: O Deus do Tambor

Antes que tudo é necessário estabelecer uma distinção: uma coisa são os tambores batá ditos pagãos, comprados em loja ou não, destinados apenas a fazer musica. Outra bem diferente são os tambores consagrados, sacralizados através de uma série de rituais que os transformam em instrumentos de comunicação com os deuses - tornando os tambores na morada, no assentamento do orixá Añá. Nas palavras de Fernando Ortiz, "um jogo de tambores consagrados - ilú Añá - é algo mais que um trio de tambores bimembranófonos, capaz de produzir uma maravilhosa e singular concatenação musical de ritmos tão belos quanto complexos. Nos batás-Añá há um poder divino".

A assignação de diferentes divindades para cada um dos tambores varia. Segundo Ortiz, que nos traz informações da década de quarenta, dizem alguns que o okónkolo (o menor dos três tambores) fala pelos orixás guerreiros, ou seja: Exu-Eleguá, Ogun, Oxossi, e Osun; que o itótele (o segundo, o tambor do meio) pelos orixás femininos, ou seja: Iemanjá, Oxun, Iansã, etc.; e que o iyá (o tambor maior e mais grave) representa a todos os santos, em particular a Xangô. Ainda outros tamboleros distribuem os tambores bata de outra maneira: o okónkolo, "que es el misionero" (o "emissário") como dizem, é o tambor de Exu-Eleguá, pois é o que geralmente "sai" primeiro; o itótele seria de Euá, a deusa do cemitério; e o iyá de Xangô. Como já foi dito, estas atribuições de cada um dos ilú varia, e não parecem nem tradicionais nem ortodoxas. Nos dias de hoje, segundo a excelente pesquisa de Amanda Vincent, o okónkolo "pertenceria " a Eleguá, aos Ibeyi, ou ainda a Xangô. O itótele a Oxum, Oyá, a Yemanjá, ou ainda a Xangô. E o iyá, divide as opiniões dos tamboleros entrevistados entre Xangô, Osain, Yemanjá ou ainda Oxum. Estas diferenças, embora aparentemente contraditórias, devem ser vistas e entendidas como expressões de relações das características de diferentes orixás com o tambor sagrado e suas funções e propriedades sacro-mágicas. Independentemente de afinidades ou de relações baseadas em características históricas ou de propriedade, existe ainda a idéia, mais consistente e abrangente de que os três ilú do trio batá são, em conjunto, os instrumentos do orixá Añá, que crêem alguns, seria uma qualidade de Xangô como deus dos trovões e da música. Há ainda aqueles que dizem que os batás "pertencem" aos Bêji (Ibeyi), os gêmeos da mitologia ioruba. Como prova citam o costume de que quando chega um gêmeo a uma ceremônia, ainda que não tenha santo feito, os batás tem que saúda-lo. E mais, que em vez de ter que pagar aos tamboleros pela saudação a seu orixá como é de praxe, são os os músicos que devem dar-lhe uma oferenda.

Na África os tambores batá são próprios ao orixá Ayan, e estão associados em particular aos cultos de Xangô e Egungun.

 

Em Cuba na verdade - variações e contradições à parte - os batá, embora "pertençam" de maneira inquestionável a Xangô, constituem o próprio orixá Añá, que na ilha adquiriu propriedades e características próprias. O trio de tambores, o jogo de ilú-Añá constitui o próprio orixá em si, como se os três tambores fossem cabeça, tronco e membros, a personificação materializada do orixá, assentado no interior de cada um dos tambores sagrados.

Só é permitido contato físico com os tambores consagrados a pessoas iniciadas no culto ao orixá Añá. Só podem tocá-los e manuseá-los aqueles que passam por um rito de iniciação onde são consagrados ao orixá. Seus músicos são seus sacerdotes, seus filhos - omo-Aña - jurados em Añá, jurados no tambor. Aqueles que tem santo feito, ao serem "apresentados" ao tambor na ceremonia indispensável que tem como finalidade aceitar e reconhecer aquela pessoa como sendo consagrada a seu orixá, sendo esta comunicação feita através do orún por Añá, ao salvarem, ao saudarem o tambor - na sua apresentação e dali por diante - o fazem com seus braços cruzados no peito, e apenas tocam o tambor com suas frontes e o beijam em sinal de respeito e adoração. Em verdade, os tambores estão cobertos, protegidos do contato direto por um tecido geralmente ricamente trabalhado e decorado, chamado banté.

Preparo e Consagração

A construção de um tambor destinado a abrigar o assentamento do orixá Añá e se tornar a própria materialização da divindade, obedece a vários rituais e liturgias que tem início na própria escolha da árvore que dará a madeira para o jogo de batá a ser sacramentado. Da mesma forma que a consagração de um aprendiz de tambolero, um yambokí, para que ele possa tornar-se um omo-Aña. Os tambores vão ser ao mesmo tempo a morada e a corporificação de uma divindade; os tamboleros jurados serão os ministros ungidos com o poder de fazer "baixar" ou "subir" os deuses e, através de seus tambores, falar com eles e por eles. Para tanto, tambores e músicos deverão ser dotados de graça divina. Antes de serem admitidos como instrumentos funcionais dos deuses e como seus sacerdotes, um e outro deverão ser consagrados por ritos sacramentais. Somente então os batá serão de Añá, ou de fundamento - batá Añá - e seus tamboleros verdadeiros omo-Aña. Embora haja um aspecto de sua construção associado ao fato de serem instrumentos de sonoridades, há que construí-los religiosamente, há que dar-lhes Añá, ou seja, investi-los sacramentalmente de uma instrumentalidade divina.

Volto a repetir que não se trata de uma "trindade mitológica" que se encontra nos três tambores e em cada um deles. O orixá Añá consiste nos três tambores, como se estes fossem seus órgãos de expressão sonora, e Añá se manifesta através do meio funcional do trio, e nunca por apenas um dos ilú. Jamais um ilú batá é tocado sozinho, como não pode cantar apenas uma corda vocal.

Para o sacramento dos batá-Añá é necessário em primeiro lugar um sacerdote de Añá, que possua um jogo de tambores consagrados: um Olu Aña, ou Alaña (ou ainda Onilú ou Olubatá). Embora em diferentes momentos da consagração seja necessária a presença de um ou mais Babalawos (sacerdotes do oráculo de Ifá que pertence a Orúnmila) ou ainda de um Olosain (sacerdote de Osain, encarregado das preparações contendo ervas e folhas - ewe), o Olu Aña ou Alaña - na função de Obá Añá - será o responsável por conduzir as muitas ceremonias a que serão submetidos os novos tambores - ele será o padrinho do novo trio de tambores consagrados. Ninguém, a não ser um Alaña, pode jurar validamente um jogo de batá. O reconhecimento de um novo jogo de batá só pode ser feito pelo Alaña de um jogo já reconhecido. Os batás consagrados a Añá, tambores de fundamento, nascem uns dos outros - é necessário um fundamento já existente e reconhecido para dar a luz, "parir" um novo fundamento, pois só assim se transfere, se vivifica a energia mágica de Añá cujo conhecimento é restrito a seus sacerdotes.

Como já foi dito, são muitos os passos e as ceremonias para a construção e consagração de um trio de batá-Añá. Após a escolha da árvore, esta deve comer e receber oferendas. O tronco será cortado e levado para ser escavado. Já pronta a estrutura de madeira de um tambor, deve proceder-se a outros ritos de consagração. Se lava o tambor ou tambores com um omiero de Osain preparado especificamente para aquela finalidade. Se rezam invocações aos orixás guerreiros, aos Bêji, a Xangô, Obatalá, Osain e outros. Depois se consulta o oráculo de Ifá, para que Orúnmila determine a marca, o Odú, o caminho de cada tambor; o nome que deverá ter o jogo de batá, o orixá que o apadrinha, e detalhes referentes ao sacrifício que se deverá fazer. Cada jogo de batá-Añá tem um nome próprio e sagrado, ditado pelo oráculo. Não se trata de um nome para cada um dos tambores, mas um único nome para o conjunto do novo trio de batá-Añá. Nomes como Añá Iggilú (algo como "tambores de madeira enfeitiçada" - nome do jogo de Adofó, o grande sacerdote santero que morreu em 1946), Añá Obá Aye ("Añá rei do universo"), Añá Bi Olorun ("Añá fiho de Deus" - tambor do grande babalawo falecido Lázaro Marchetti, mantido por seu filho Frank Marchetti), Ako Bi Añá ("o primogênito de Añá, nome do meu tambor, nascido em 09/11/1998 de Añá Obá Aye, tambor escavado e jurado por Pablo Roche, a.k.a. Okilákpua, e que pertenceu a José Calazán Fria, a.k.a. Moñito).

Cada um dos três tambores leva em seu interior sua "carga", seu afowobo, o assentamento de Añá, o crisma de sua consagração, de onde emana sua força sacromágica. Esta carga interna, afixada ao corpo do tambor, o resguardo secreto de cada ilú é constituído de uma pequena bolsa de couro que contém diversas substâncias. Seus componentes variam para cada tambor e podem incluir búzios, contas de vidro, plumas, etc. Os ewe, as ervas e folhas sagradas utilizadas tanto nas cargas como nos tambores propriamente ditos são preparadas por um Olosain, um sacerdote de Osain. Com as letras de seus odús pintadas no interior de cada tambor, com folhas também colocadas em seu interior, e as cargas preparadas, oferece-se aos tambores uma comida especial em sacrifício. Os resguardos internos comem apenas esta única vez, antes de serem afixados e encerrados no interior dos tambores.

Começando-se pelo iyá, procede-se então a encabeçar, a encourar, o enú (a boca maior) e o chachá (a boca menor) dos tambores, sendo que as duas bocas serão unidas por correias ou tirantes verticais - de couro em Havana, de corda de cânhamo em Matanzas - que proporcionarão a tensão, e repuxadas por outra faixa, também de couro ou corda, passada na horizontal. Preso no primeiro tirante, coloca-se um ikín, um coquinho de dendezeiro, próximo a uma argola que será por onde o tambor irá comer desse momento em diante.

No entanto, ainda é necessária uma nova cerimônia antes que os novos batá possam cumprir suas funções ante os orixás. Se chama de reconhecimento, ou transmissão de Añá. Neste ritual, o jogo de batá-Añá que pariu o novo trio, já reconhecido em sua capacidade plena, irá reconhecer o jogo de batá que é noviço, ou iyawô, e transmitir-lhe seu axé, realizar a transmissão de Añá. Para tanto se dá comida segundo o ritual adequado aos seis tambores, ou seja, os pertencentes aos dois trios de batá, o velho e o novo. Depois começam o reconhecimento e a transmissão de Añá, que tem três fases. Primeiro, os omo-Aña mais velhos, liderados pelo Alaña do jogo que deu a luz ao novo, seu padrinho e Obá Añá, tocam os tambores de seu próprio jogo. A seguir, os novos tamboleros tocam os batás velhos enquanto os velhos omo-Aña tocam no novo trio. Finalmente, os omo-Aña mais jovens recebem seus próprios tambores das mãos dos mais velhos, seus padrinhos, e podem então tocar seus tambores já definitivamente consagrados, reconhecidos, já tendo sido efetuada a transmissão do axé divino, a transmissão de Añá.

História do Tambor e seus Sacerdotes

Fernando Ortiz informa que os batás foram tocados pela primeira vez em Cuba em um cabildo lucumí em Havana chamado Alakisá, situado na Calle Egido.

Nas primeiras décadas do século dezenove, Añabí ("nascido de Añá"), um escravo lucumí que se tornou conhecido como Ño Juan el Cojo, chegou à Cuba. Contava-se que em sua terra ele era babalawo, olosain e onilú. Deve ser notado, no entanto, que naqueles tempos em Cuba, de maneira geral um OluAña servia a Añá e a nenhum outro orixá. Pouco após sua chegada à Cuba, uma carroça carregada com cana-de-açúcar fraturou sua perna enquanto era levado para trabalhar em um engenho, e foi levado a um barracão-hospital para escravos, em Regla. Foi lá, que emocionado, ele ouviu os ritmos litúrgicos que ainda não havia escutado em Cuba, e onde conheceu outro

lucumí, um velho escravo chamando Atandá ou Ño Filomeno García, que ele já conhecera na África como Olubatá. Juntos foram ao cabildo Alakisá, onde descobriram que os tambores que lá eram tocados não eram "jurados", e que não havia em Cuba um jogo de batás consagrados. Acredita-se que por volta de 1830 Añábí e Atandá (que era também um agbégi - escultor de estátuas) construíram o primeiro trio de batás nascido de acordo com todos os rituais da tradição africana. Este jogo de batás foi consagrado com o nome de Añábí. Este foi o primeiro jogo de batás em Cuba verdadeiramente consagrado a Añá.

Este jogo de tambores de Añábí e Atandá foi legado como herança a um grande OluAña chamado Andrés Roche, que por seus dotes musicais era conhecido como Andrés "El Sublime". Após sua morte, seu filho Pablo Roche, omo-Obatalá, conhecido como Okilákpua ("braço forte") - que até hoje, embora falecido continua sendo reverenciado como um dos maiores Alañas de todos os tempos - herdou os tambores de seu pai.

Atandá teve um filho que também era OluAña e babalawo. Seu nome era Quintin Garcia. Atandá e Añábí também ajudaram a fundar o cabildo lucumí em Regla, o Cabildo Yemoya, juntamente com o grande babalawo lucumí Remigio Herrera, Adéchina. Para este cabildo Añábí e Atandá construíram e consagraram um jogo de batás ao qual deram o nome de Atandá. Estes tambores foram certa vez apreendidos pelas autoridades policiais, mas acabaram sendo resgatados e foram entregues a Okilákpua.

Três outros jogos de batas de fundamento foram construídos por Atandá e devem ser mencionados. Um jogo, feito para o cabildo lucumí do engenho San Cayetano, era propriedade de Carlos Alfonso, oní Xangô e Olubatá, que foi um dos grandes Alañas de sua era, um dos poucos conhecedores dos rituais arará e um dos únicos capazes de tocar os tambores rituais de Olókun. O segundo jogo foi feito para Eduardo Salakó, "el Chino" Salakó, membro do cabildo lucumí da cidade de Matanzas. Salakó era um lucumí famoso como Onilú, Olosayin, mayombero e mestre de rituais africanos. Alguns dizem que teria sido o próprio Salakó quem construiu os tambores, uma vez que Atandá já teria morrido na época. Salakó e o famoso santero Obadimelli, foram os dois maiores arquitetos responsáveis pelo caráter e feições da prática moderna dos ritos lucumís em Cuba, e por extensão, nos Estados Unidos. Salakó morreu após realizar uma dança ritual com o uso de máscara para Olókun, em 1913. Seus batás nunca mais foram tocados. O terceiro jogo foi feito para Manuel Guantica, sobre quem se sabe muito pouco.

A partir do século XX, novos jogos foram construídos. O primeiro escultor construtor desta era foi Adofô, de Saravilla, em Matanzas, que morreu em 1946. Ele construiu três jogos dignos de nota. O primeiro foi para um cabildo lucumí na região conhecida como Majáqua, em Unión de Reyes. Após a morte de Adofô este jogo passou para o famoso OlúAña Miguel Somodevilla. O segundo jogo foi feito para o famoso santero, oní-Xangõ e Olú-Aña Nicolas Angarica, Obátolá, que viveu em Matanzas até sua morte em 1963. Seu filho, "Papo" Angarica guarda a tradição em Havana nos dias de hoje.

Existe também ainda hoje na cidade de Matanzas um outro jogo de batas de fundamento construídos por Adofô que passaram às mãos do grande OluAña Esteban Domingo, filho de Oxum. Originalmente estes tambores pertenceram a Carlos Alfonso, e foram de seus avós, lucumís do cabildo do engenho de San Cayetano, já mencionado. Este é o segundo jogo de batás herdado por Alfonso do grupo de San Cayetano. O primeiro jogo foi construído por Atandá. Quando os mais velhos foram morrendo e havia poucos remanescentes no cabildo, um dos jogos feitos por Adofô foi levado para o cabildo Xangôdédún, em Havana.

Em 1936, por sugestão do famoso etnomusicólogo e estudioso das tradições afro-cubanas Fernando Ortiz, batás consagrados foram tocados pela primeira vez nas ruas de Havana. Os músicos eram Pablo Roche no iyá, Aguedo Morales no itótele, e Jesus Perez no okónkolo. Tanto Pablo Roche quanto Jesus Perez, a.k.a. Obá Ilú, viriam a ter uma profunda influência na codificação da tradição de Añá e seus oficiantes. Pablo Roche e Gregório "Trinidad" Torregosa mantiveram a tradição da construção e consagração de tambores iniciada por Atandá. Músicos como Jesús Perez, Raúl Diaz, Giraldo Rodriguez e mais tarde Pipo Piña, Onelio Scull, Orlando "Puntilla" Rios e meu primeiro mestre Julito Collazo, todos, pode-se dizer que pertencem ou pertenceram à escola de bata-Añá de Carlos Alfonso e Pablo Roche.

Por volta de 1950 existiam aproximadamente vinte olubatás "completos" - ou seja, com um total conhecimento formal e prático do repertório e dos aspectos litúrgicos do tambor - e cerca de quinze jogos reconhecidos como pertencentes à linhagem estabelecida na ilha pelo primeiro batá-Añá, em Cuba.

Cuidados Especiais

A consagração de um ilú batá-Añá é permanente. Dura enquanto não se destruam as estruturas de madeira; enquanto as marcas permaneçam na madeira, mesmo quando já quase apagadas pelo tempo. Quando é necessário uma troca de couros ou tirantes, ou para um eventual reparo na madeira, as cargas internas, os objetos de resguardo que concentram a energia mágica dos ilús, são retirados com reverência e colocados em um prato branco ainda não utilizado, cobertos com outro prato, e devolvidos ao interior de cada tambor antes que estes sejam novamente encabeçados e fechados.

Quando se rompe um couro é necessário evitar que este seja profanado. Este problema é resolvido consultando o oráculo, que indicará o caminho que se dará ao awô sem serventia, seja atirá-lo ao mar, ao mato, ao cemitério ou ao fogo. De qualquer maneira, antes de se desfazer do couro, este é cortado em pedaços para que ninguém o possa fazer soar. Mas há alguns Olu Aña que preferem conservar e guardar com cuidado todos os couros utilizados em sua vida.

Os batá, uma vez jurados, requerem cuidados especiais. Os três batá são guardados sempre pendurados, no ar, como as nuvens que trazem os trovões de Xangô. Jamais podem tocar a terra, exceto quando comem, ao receberem o ejé de um sacrifício. Mesmo nestas ocasiões, e mesmo quando os batá são colocados frente aos orixás, antes do início dos toques litúrgicos, não podem ser colocados sobre o "chão limpo", mas sobre uma esteira.

Ao ouvir o trovão, um tambolero tem sempre que tocar o ilú batá que tenha mais próximo de si, nem que seja com uma simples pancada. O que é importante é que o omo-Aña responda a Xangô quando este toca seus tambores que ribombam nas nuvens. E se se escuta trovoadas enquanto se toca batá em uma ceremônia de santo, imediatamente muda-se o toque para homenagear Xangô. Em Havana os tambores só devem ser tocados durante o dia, embora seja comum as ceremônias se estenderem pelas primeiras horas da noite. Em Matanzas as festas de santo tem início à noite, e muitas vezes entram pela madrugada.

Ninguém que tenha presenciado uma ceremônia com ilú batá-Añá, com um fundamento consagrado, jurado e sacramentado, põe em dúvida sua natureza mágica. Muito menos aqueles que já os tocaram. A sensação de ter algo vivo, que responde e interage ao toque das mãos é tão surpreendente quanto real. Mas esta natureza muitas vezes se manifesta mesmo quando estão em repouso. Segundo alguns Alaña, seus tambores às vezes tocam sozinhos, dentro de seus sacos, dependurados do teto ou em uma parede. E não apenas sons desarticulados nem simplesmente rítmicos, mas toques completos, em tons quietos, suaves, mas claros e inequívocos. Quando isto acontece há que procurar o oráculo, para que se conheça a interpretação que será dada pelos búzios ou por Ifá.

Añá nas Américas e no Mundo

No ano de 1961, o babalawo Pancho Mora, que foi iniciado por Quintin Lecon, realizou o primeiro bembê (festa de santo) nos Estados Unidos. Foi um tambor para Xangô em Casa Carmen, um clube de dança no Bronx, em Nova Iorque. O mayorcero (tocador do tambor maior, o iyá) foi meu primeiro mestre de batá, Julito Collazo, que ibaê baê tonu. Mas os tambores não eram consagrados - eram "pagãos", ou aberikulá. Añá só chegou aos Estados Unidos em 1976, quando o babalawo e omo-Aña "Pipo" Piña, de Miami, trouxe um jogo consagrado de Cuba. Este jogo chegou a Nova Iorque ainda em 1976, e foi tocado no Harlem, na casa de uma popularíssima filha de Iemanjá, Olympia Alfaro. De novo, Julito Collazo tocava o iyá (nesta primeira ceremônia com os tambores consagrados, Pipo tocou o itótele e seu filho o okónkolo). Esta foi a primeira vez que filhos de santo e sacerdotes iniciados em Nova Iorque foram apresentados a Añá. Alguns esperavam já há vinte anos para realizar o ritual da apresentação ao tambor.

O segundo jogo de Añá a ir para os Estados Unidos, chegou em 1979. Julito Collazo participou de sua preparação e consagração em Cuba. Pertencem a um conhecido filho de Xangô e Alaña, Onelio Scull, que hoje vive em Porto Rico. Mario Arande possuía o terceiro jogo de fundamento de Añá nos Estados Unidos, mas foi vendido. Alfredo"Coyude" Vidaux é o dono do quarto. Este jogo nasceu dos tambores de Onelio Scull, e foi o primeiro jogo totalmente construído e consagrado nos Estados Unidos. Em 1981 nasceu o jogo de Juan "Negro" Raymat, e de seu jogo nasceu o de Orlando "Puntilla" Rios, um dos olubatás mais influentes nos Estados Unidos até os nossos dias. O nome de seu tambor é Oba dé jé - "o rei vem para vencer". Somente em 1983 nasceu o jogo de Francisco Aguabella, que esperou anos para ter seu fundamento nascido do tambor do Olu Aña de Matanzas Alfredo Carbo (Aguabella é matancero).

Julito Collazo, Francisco Aguabella e Onelio Scull - todos amigos de infância em Cuba - foram os pioneiros e os mais influentes Olubatás no estabelecimento e na formação do estilo e do caráter da música litúrgica do ritual da nação lucumí nos tambores batá nos Estados Unidos.

Após 1979, quando os refugiados cubanos chamados de marielitos (por terem partido em sua maioria do porto de Mariel) chegaram aos Estados Unidos, os tambores batá e os batá-Añá, bem como a religião iorubá na sua versão cubana da nação lucumí, a santería, passaram por uma profunda transformação que acarretou numa grande difusão e expansão da cultura afro-cubana nos Estados Unidos de maneira geral. Com a chegada entre os "marielitos" de diversos babalawos, santeros e omo-Añas e Olu-Añas, a religião cresceu e se alastrou pelo país, conquistando não apenas americanos mas muitos dos estrangeiros e imigrantes que povoam aquele pais. Daí, foi apenas um passo para a santería e Añá se espalharem pelo mundo.

Orlando "Puntilla" Rios, como já foi dito, foi certamente o olubatá mais influente dentre os marielitos. Outros tamboleros e omo-Aña importantes que também saíram de Cuba pelo porto de Mariel e imigraram para os EUA foram Roberto Borrel, Pepe Calabaza e Ernesto Guerra, com quem tive a honra de formar o conjunto Kubatá em 1980, e que se tornou uma referência para o folclore e percussão de origem afro-cubana nos Estados Unidos naquela época. Muitos outros mestres se sucederam, como Carlos Aldama e o ilustre matancero Felipe Garcia Villamil. Os tambores de fundamento começaram a se multiplicar. Os imigrantes latino-americanos de países vizinhos onde a santería cresceu, como Porto Rico, Panamá e Venezuela, levaram a religião para seus países (este movimento em verdade já existia desde os anos 60 e 70) e muitos passaram a ir a Cuba para se jurar, fazer santo, ou buscar tambores sagrados e estabelecerem linhagens de Añá em seus países. Hoje encontramos grandes mestres cubanos ou de outras nacionalidades com tambores de fundamento, bata-Añá por todo o mundo, e como todo verdadeiro fundamento, esses tambores traçam sua linhagem aos primeiros tambores consagrados em Cuba.

Añá no Brasil

O passado do orixá Añá/Anya no Brasil é nebuloso, e vou me permitir algumas especulações baseadas em alguns poucos fatos concretos. Pretendo aprofundar e examinar esta questão no futuro e agradeço desde já qualquer informação que possa me ajudar a formar uma opinião mais abalizada.

De maneira geral, no estudo das religiões afro-brasileiras, a Bahia recebeu uma atenção maior e se tornou mais conhecida, e o atabaque das nações de kêtu, jêje e angola acabou por transformar-se no grande referencial da percussão litúrgica de origem africana. Em minha experiência pessoal durante muitos anos de contato com alabês e sacerdotes do candomblé da Bahia e do Rio de Janeiro ou na literatura dos estudos mais conhecidos feitos sobre a música do candomblé destes estados, jamais encontrei nenhuma referência a instrumentos ou orixá que possam ser associados aos ilú-batá ou a Añá/Ayan.

No entanto, é precisamente em diferentes estados do norte, como Pernambuco e Maranhão, e do sul, no Rio Grande do Sul, que vamos encontrar referências e instrumentos que podem sugerir algum paralelo.

Segundo o músico e pesquisador Paulo Dias, da Associação Cachuêra, os tambores encontrados no Brasil que nos remetem aos ilú-batá seriam os seguintes:

"O Tambor de Mina do Maranhão (inclusive da famosa Casa de Nagô) utiliza dois abatás, de corpo cilíndrico ou troncônico, tensionados por tarrachas. No Xangô do Recife, parece que atualmente só a casa chamada "Sítio de Pai Adão", a mais antiga, é que ainda usa os três batás - com o corpo mais ou menos aproximado à forma da ampulheta e couros tensionados por cordas (é, realmente, o que temos de mais parecido aos batás cubanos e nigerianos). Os ilús utilizados no Xangô pernambucano são também bimembranófonos, porém tocados na vertical, numa das bocas somente. No Batuque do Rio Grande do Sul, utilizam-se tambores (o instrumento é chamado simplesmente tambor) bimembranófonos com corpo cilíncrico e tensionados por cordas, podendo ser tocados na vertical ou na horizontal (geralmente nos toques lentos), quando os dois couros são golpeados. Algumas casas de religião riograndenses também utilizam um grande tambor troncônico de duas peles denominado inhã, consagrado a Aganjú ou Iansã."

Paulo Dias acrescenta ainda que "os três ilús do Xangô pernambucano denominam-se melê, meleunkó e yan (o mais grave, mestre, provavelmente uma corruptela de yiá)". Os termos melê e meleunkó nos remetem diretamente não só aos batás cubanos como aos africanos. Em Cuba, omelê é utilizado como sinônimo de itótele, enquanto que na África - Nigéria e Benin - não só encontramos o mesmo termo, omele, como também omele-akó (embora inicialmente os batás fossem apenas três na África - iyáalú, omele e kúdi - com o passar do tempo foram incorporados um segundo e terceiro tambores - omele-abo e omele ako. Hoje também é possível encontrar-se conjuntos que apresentem também um tambor chamado de omele-méta, que consiste em verdade de três kúdis presos um ao outro). Quanto ao fato de yán em Pernambuco, ou o inhã do Rio Grande do Sul serem corruptelas de iyá, é possível e provável. Mas também me ocorre - embora mais improvável, mas como especulação - que tanto yán quanto inhã, possam revelar uma associação com o vocábulo Ayán, e por conseqüência, com o orixá.

Existe ainda no repertório dos ritmos executados nos atabaques do Candomblé da nação de Kêtu um ritmo chamado batá. No Xangô pernambucano encontramos igualmente um ritmo com a mesma nomenclatura, batá, e ainda outro chamado abatá. É difícil precisar origens ou semelhanças entre estes ritmo e células rítmicas do batá, mas permanece a nomenclatura como referência ao instrumento iorubá. No entanto, a semelhança na morfologia de alguns instrumentos ou na nomenclatura de ritmos não pressupõe necessariamente uma relação de parentesco entre os instrumentos e muito menos com o orixá. Também já encontrei referências ao fato de que os tambores batá foram utilizados pelos malês islamizados durante a famosa Revolta dos Malês na Bahia, e que esses tambores haviam sido posteriormente destruídos e proibidos pelas autoridades (é interessante notar que na Nigéria dos dias de hoje, as famílias pertencentes às linhagens de Ayán, os guardiães dos batá consagrados, têm-se convertido em grande parte ao Islã). Pode-se também especular que a não-existência ou desaparecimento do orixá Añá no Brasil se deva ao fato de que as nações de Kêtu e Jêje-Nagô, que no Brasil seriam associadas às tradições culturais do povo Iorubá, eram provenientes de outras regiões do Império do que a chamada nação Lucumí, de Cuba, que seria mais proximamente associada ao reino de Oyó. No entanto, no Rio Grande do Sul, um dos cinco "lados" ou nações do batuque, é precisamente o chamado de Oyó. Foi em Oyó, durante o reinado de Xangô, o terceiro Aláfin, que este introduziu os tambores batá.

A verdade é que se de fato existiu o culto ao orixá Añá/Anya no Brasil, e se existiram tambores batá-Añá, esse culto e tambor há muito se perderam, e restaram apenas os tambores do Maranhão, Recife e Rio Grande do Sul, e o ritmos em Pernambuco e nos atabaques da nação de Kêtu.

Resta-nos então a história da (re?)-introdução dos tambores batá-Añá nos tempos de hoje. O que se segue agora, é um breve relato da história da chegada dos primeiros tambores de fundamento - seguindo a tradição afro-cubana da nação Lucumí - ao Brasil.

Curiosamente, a Santería afro-cubana chegou ao Brasil pelas mãos de um babalawo, um sacerdote de Ifá. Rafael Zamora Díaz, Oni Xangô e Awô de Orúnmila, chegou ao Brasil em 10 de Novembro de 1990, trazendo consigo as tradições religiosas específicas ao culto de Ifá, e de uma maneira geral, da Santería afro-cubana ao nosso país. Inicialmente por seu intermédio, vários brasileiros foram consagrados -inicialmente em Cuba e mais tarde no Brasil - a Orúnmila como babalawos, e outros oluwos cubanos também chegaram aos país, como meu padrinho de awó-fákan, Wilfredo Nelson. Hoje em dia, existe uma crescente comunidade filiada à nação Lucumí no Rio de Janeiro, contando entre seus membros santeros e santeras, obás e pessoas com santo feito em Cuba ou no Brasil, seguindo a tradição e os rituais próprios a esta nação.

O primeiro tambor batá consagrado em Cuba a chegar ao Brasil foi trazido por um babalawo brasileiro conhecido por Beto. Que se saiba, este tambor nunca tocou. Infelizmente não consegui encontrá-lo para obter as informações sobre as datas de sua consagração e de sua chegada ao Brasil, mas espero poder em breve preencher esta lacuna.

Meu tambor foi consagrado - nasceu - em Havana, no dia 11 de setembro de 1998, e recebeu o nome de Akó Bi Añá - "O Primogênito de Añá". Foi parido por Añá Bi Oyó, tambor conhecido como La Atômica em Havana. Añá Bi Oyó nasceu em 10 de outubro de 1945, e foi construído por Pablo Roche, Okilákpua, para José Calazán Frias, conhecido como Moñito. O Oba Añá da consagração de meu tambor foi o mesmo sacerdote que me jurou em Añá, Armando Pedroso.

Em 26 de novembro de 1999, foram realizados os primeiros juramentos e lavatórios para Añá no Brasil, conduzidos por Fermín Nani, Ochunletí, que ibae. Foram jurados em Añá, Wilfredo Nelson, Awo de Orunla, Erdigbere, e José Roberto Brandão Telles, o Zero, Awo de Orunmila, Ojuani Meyi. Tiveram suas mãos lavadas em outra ceremônia no mesmo dia, Ramiro Musotto, Daniel Gomes Pinto, o Belion, e João Gabriel Carvalho.

No dia 5 de dezembro de 1999, foi realizada a primeira festa de santo com Akó Bi Añá no Brasil. Foi um tambor para Iemanjá, realizado na casa da Sra. Lia Brandão Telles, ekédi de Omolu.

Desde aquela data, Ako Bi Añá, que no próximo ano completa dez anos de vida, já realizou vários güemileres, jurou outros omo-Aña enquanto outros nele lavaram suas mãos, e vários filhos e filhas de santo realizaram perante ele sua cerimônia de apresentação

Mas nosso trabalho continua, na divulgação da música e dos ritmos do batá - tanto com tambores aberikulá em apresentações, shows e gravações - quanto com o tambor de fundamento em ceremonias e güemileres, juramentos e lavatórios, para que Añá, este orixá que é componente fundamental e maior da nossa religião possa crescer e criar raízes fortes, firmes e perenes em nossas terras.

MAFEREFÚN AÑÁ! MAFEREFÚN OSAIN! MAFEREFÚN XANGÔ! AÑÁ IBORU, AÑÁ IBOYA, AÑÁ IBOCHICHÉ!

Bibliografia